Caminhos de uma longa luta

09/11/2010

O Coletivo DAR está iniciando uma parceria com a respeitadíssima ONG  de Redução de Danos É DE LEI, que trabalha com usuários de crack no centro de São Paulo. O seguinte texto é o primeiro relato dessa caminhada.

“Chegaram os meninos de ouro!”. Assim a equipe de campo do Centro de Convivência É de Lei, formada por psicólogos, cientistas e assistentes sociais e redutores de danos afins, foi recebida ao chegar na zona tabu da sociedade paulistana: a cracolândia.

O trabalho é simples e reconhecido pelos usuários. Com jaquetas e camisetas coloridas e um crachá que os identifica, eles se aproximam. Levam camisinhas, piteiras feitas de silicone e manteiga de cacau com própolis e calêndula. As camisinhas, ajudam a prevenir o HIV e a gravidez. As piteiras tem boa aceitação e são usadas para que os usuários de crack não queimem suas bocas e não compartilhem saliva. A manteiga de cacau ajuda a curar os lábios maltratados pelo metal do cachimbo frequentemente aquecido. Diminuem o contágio de hepatite. Convidam as pessoas a frequentarem o centro de convivência, localizado na mesma região. Lá acontecem oficinas de vídeo e debates.

O trabalho é complexo e reconhecido pelos usuários. Com essas pequenas ações, conseguem abrir um canal no insondável mundo da cracolândia. Tem sucesso em, a partir da cultura de uso, ouvir as pessoas que ninguém mais quer ouvir. Conversar e oferecer alternativas. Mostrar cuidado, um outro caminho, buscam soluções para o que parece impossível de mudar.

E a situação não é fácil. São pessoas muita vezes em situação de rua, em óbvia fragilidade física e psicológica, marginalizadas e estigmatizadas por uma sociedade que perdeu a capacidade de cuidar dos seus e deixa a cargo da polícia uma questão que deveria ser encarada de outra forma. O uso do crack, nesse sentido, acaba sendo a cereja do bolo do descaso.

E a forma que o Estado encontrou para lidar com isso poderia ser engraçada se não fosse muito pelo contrário. Os usuários se aglomeram em lugares determinados para usar as substâncias entre os seus. Ficam lá até que chega a PM ou a Guarda Civil, com cassetetes de 1 metro (são realmente espantosos) e empurram geral para uma romaria sui generis. Como numa manifestação silenciosa e abnegada, todos craqueiros saem andando, fazendo sua romaria e “dando área”. Por alguns minutos. Tão logo as forças do Estado se retiram, recomeça a brincadeira de gato e rato.

Que fique claro que não é pedindo licença que a polícia consegue remover temporariamente as pessoas. Abusos de autoridade, violência, jogar o carro em cima, apavorar, bater, chutar são expedientes comuns da corporação que mais cresce em morte e tortura no Brasil.

Mas é possível vislumbrar um caminho. Tanto se você é um usuário como se você é alguém que se preocupa com a questão das drogas no Brasil. O É de Lei faz a gentileza de apontar o trajeto.


Maconha: como ela age no organismo e seu uso como remédio

07/11/2010

IdMed

Escrito por Renato Malcher-Lopes
Qui, 23 de Setembro de 2010 11:59

Maconha como ela age no organismo e seu uso como remédioComo funciona o efeito da maconha no organismo em geral e no cérebro?

O principal componente ativo da maconha, o THC, se liga a dois tipos principais de receptores: o CB1, mais proeminente no sistema nervoso central, e o CB2, mais encontrado no resto do organismo. Esses receptores são ativados por substâncias produzidas por diversos tipos celulares, incluindo os neurônios. Essas substâncias são, por isso, chamadas de canabinoides endógenos, ou endocanabinoides. São como “maconhas” produzidas pelo nosso organismo. Os endocanabinoides são protagonistas numa complexa rede de mecanismos fisiológicos, metabólicos, sensoriais, comportamentais, cognitivos e emocionais, que agem de forma integrada para manter a homeostase (equilíbrio do ambiente interno do organismo) em situações de normalidade e em situações pós-estresse. Basicamente, o sistema endocanabinoide, composto pelos endocanabinoides per si e seus receptores, funciona como orquestrador de alterações de ajuste a flutuações normais e, sobretudo, como coordenador de ajustes necessários ao retorno do organismo à normalidade após a adaptação aguda a algum tipo de estresse. Por isso, o THC da maconha gera simultaneamente e de forma mais intensa um conjunto grande de efeitos dos quais nosso próprio organismo lança mão normalmente para lidar com flutuações diárias e/ou situações adversas. Assim, a maconha causa sensação de relaxamento psicológico, relaxamento muscular e maior capacidade de introspecção (aumenta o foco e a atenção em aspectos específicos e diminui a atenção em aspectos dispersos do ambiente). Aumenta a percepção, a sensibilidade e a apreciação lúdica, estética e hedônica de todos os sentidos (olfação, gustação, audição, tato, visão e propriocepção). Diminui a sensação de dor, diminui a ansiedade. Aumenta a criatividade e dificulta o pensamento objetivo, que é substituído por uma capacidade atípica de integração de ideias, conceitos e emoções de forma mais flexível e subjetiva. Melhora a capacidade de gerar imagens mentais. Reduz transitoriamente a memória de curto prazo e, por isso, distorce a noção de tempo. Aumenta o apetite, atrasa a sensação de saciedade e elimina náuseas.

Os efeitos fisiológicos do sistema endocanabinoide e, por conseguinte, muitos dos efeitos da maconha são em grande parte resultantes da inibição do chamado sistema nervoso autônomo simpático (que atua em situações de emergência que demandam luta ou fuga) e pela ação estimuladora, ou permissiva, que o THC exerce sobre o chamado sistema nervoso autônomo parassimpático (que predomina em situações de normalidade). Essa ação sobre o sistema nervoso autônomo, em concerto com a ação dos canabinoides sobre circuitos do sistema nervoso central, promove, por exemplo, as sensações de bem-estar e calma, relaxamento muscular, redução da dor, aumento do apetite e da mobilidade gástrica, redução da sensação de náusea, aumento do armazenamento de reservas nutricionais (gordura e glicogênio), atenuação da resposta imune e inflamatória, e a estimulação da interação social e afetiva. Todos esses efeitos são transitórios e reversíveis. Em doses excessivas, ou quando abusada por um longo período, muitos dos efeitos da maconha, mas nem todos, serão os opostos dos descritos acima. Embora seja normalmente ansiolítica, em determinadas situações, a maconha pode potencializar o mau humor e a ansiedade, e eventualmente gerar estados paranoides moderados e transitórios.

Onde o THC é metabolizado e qual seu caminho no organismo após isso?

O THC é metabolizado no fígado e seus subprodutos são eliminados na urina. Por causa de sua natureza gordurosa, o THC associa-se a reservas endógenas de gordura e pode permanecer em baixas quantidades por muitos dias no organismo.

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DDD (Dica do DAR) – Cartão do usuário e cartilha “Cultiva teus direitos”

07/11/2010

Recentemente duas iniciativas de difusão de informação sobre direitos do usuário de drogas e sobre auto-cultivo de maconha começaram a ser distribuídas. A ONG Psicotropicus, do Rio de Janeiro, lançou o Cartão do usuário de drogas, sob o bordão: “abra este cartão mas não abra mão dos seus direitos”, o folheto contém oito orientações de como portar diante da polícia em caso de abordagem no momento do consumo ou do porte de drogas ilícitas. Uma reportagem sobre o projeto pode ser lida no portal Comunidade Segura, e o download dele pode ser feito aqui.

Já a cartilha do Growroom pode ser encontrada para download aqui . 5 mil cópias foram impressas e já estão sendo distribuídas em eventos antiproibicionistas.


Cientistas brasileiros querem derrubar barreiras à pesquisa com maconha

06/11/2010

Veja

Em países como Estados Unidos, Canadá e Inglaterra, a indústria farmacêutica avança na produção de remédios com substâncias da planta. Entraves legais impedem investigações similares no Brasil

Jones Rossi
Linha de produção do Sativex, medicamento feito à base de substâncias extraídas da maconha.Linha de produção do Sativex, medicamento feito à base de substâncias extraídas da maconha. (Divulgação) 

Foi um brasileiro, o médico Pernambuco Filho, durante a II Conferência do Ópio da Liga das Nações, em 1924, que deu início à onda de combate à maconha no mundo inteiro

A maconha foi trazida ao Brasil por escravos africanos, ainda durante o período colonial. Disseminou-se entre índios, mais tarde entre brancos e, por algum tempo, sua produção chegou a ser estimulada pela coroa. Até a rainha Carlota Joaquina habituou-se a tomar chá feito com a erva, depois que a corte portuguesa se mudou para o Brasil, em 1808. A partir de meados do século XIX, circulou por aqui a ideia – importada da França – de que a Cannabis poderia ser usada com fins medicinais. Como anunciava uma propaganda das cigarrilhas Grimault, em 1905, a erva serviria para tratar desde “asmas e catarros” até “roncadura e flatos”.Em 1924, contudo, começou a difundir-se, não apenas no Brasil, mas em âmbito mundial, a tese de que o consumo da maconha era um mal. E um médico brasileiro teve papel importante nessa história. Leia o resto deste post »


HOJE: Dia D para as drogas

02/11/2010

O Dia D para as drogas

Bruno Huberman 2 de novembro de 2010

Carta Capital

Californianos vão as urnas nesta terça-feira para decidir a nova configuração do Congresso e a legalização da maconha no Estado. O professor Henrique Carneiro afirma que caso aprovada, a legalização pode levar ao fim da guerra às drogas. A Bruno Huberman. Foto: AFP 

O professor Henrique Carneiro afirma que caso aprovada em referendo hoje na Califórnia, a legalização da maconha pode levar ao fim da guerra às drogas no México

No mesmo dia que os Estados Unidos vai às urnas decidir a nova formação do Congresso, os eleitores da Califórnia votam nesta terça-feira 2 a proposição 19, que caso aprovada liberará a posse e a plantação de maconha para uso pessoal, além de permitir aos municípios e condados locais regularem a taxação de impostos sobre a comercialização legal da substância.

A adesão da proposição não se resume apenas aos californianos. A legalização da maconha pode representar o fim da guerra contra às drogas. Mais da metade da população carcerária americana está presa por crimes ligados à drogas, a maior parte por posse e tráfico de maconha. Na segunda-feira 1, um dia antes do referendo, foram aprendidas treze toneladas de maconha em Tijuana, no México, na fronteira com a Califórnia. A batalha contra o narcotráfico já teria levado a morte de 7.700 pessoas no último ano e meio no México.

“Se a Califórnia legalizar, a tendência seria o México fazer o mesmo”, prevê o professor de História da USP Henrique Carneiro. Em entrevista, ele analisa a proposição 19 e esboça a nova conjuntura internacional que deve ser formada caso a maconha seja legalizada na Califórnia. Carneiro fala de como a “indústria da maconha” deve funcionar, que para ele é o principal motivo do provável sucesso da lei na votação desta terça-feira. Há grandes empresários interessados nas benéfices econômicas da cultivação da cannabis, a planta da maconha. Na semana passada, o milionário George Soros doou um milhão de dólares para a campanha a favor da legalização. “As drogas são, como outros produtos, gêneros de primeira necessidade. São algumas das principais commodities, mesmo que não sejam oficiais”, ressalta Carneiro.

Leia abaixo a entrevista com Carneiro, que além de discutir o combate às drogas e sua viabilidade econômica, aponta para os malefícios das drogas legais e sua exaltação em detrimento da demonização das ilícitas.

CartaCapital: O que você acha da proposição 19?

Henrique Carneiro: Eu acho um avanço, se estivesse lá votaria a favor. Ela representa uma mudança de paradigma em relação a visão da maconha, mas também em relação ao conjunto das drogas. O que não significa que ela tenha aspectos questionáveis. Já existe hoje uma espécie de legalidade oficiosa que criou toda uma cultura de cooperativas na Califórnia, de grupos que fazem um plantio em pequena escala. Essa proposição tem um sentido que alguns acusam de privatista. Porque ela vai no sentido de legalizar o auto-consumo, o que é muito positivo, mas em um limite bastante estrito. Para vender, ela vai exigir não só o pagamento de imposto, mas o pagamento de uma licença que é bastante alta que poderia chegar a quantidade de muitas dezenas de milhares de dólares. Isso levaria a absorção do mercado por grandes empresas limitando o funcionamento das cooperativas porque elas não poderiam mais comercializar. Leia o resto deste post »


Cartas na mesa – A dinâmica do uso abusivo de drogas no contexto brasileiro

01/11/2010

“Me contem, me contem aonde eles se escondem?
atrás de leis que não favorecem vocês
então por que não resolvem de uma vez:
ponham as cartas na mesa e discutam essas leis” Planet Hemp

A seção Cartas na mesa é composta por opiniões de leitores e membros do DAR acerca das drogas, de seus efeitos político-sociais e de sua proibição, e também de suas experiências pessoais e relatos sobre a forma com que se relacionam com elas. Vale tudo, em qualquer formato e tamanho, desde que você não esteja aqui para reforçar o proibicionismo! Caso queira ter seu desabafo desentorpecido publicado, envie seu texto para coletivodar@gmail.com  e ponha as cartas na mesa para falar sobre drogas com o enfoque que quiser.

Nesta edição trazemos artigo gentilmente enviado pelo professor André Toríbio Dantas, coordenador do Grupo de Estudos “Sociedade, Saúde e Cultura na América Latina”, no Núcleo de Estudos das Américas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). André acredita que “Avançando no pensamento que se direciona para a saúde e opções singulares e únicas de cada corpo e espírito, podemos afirmar que se houver equilíbrio na vida, o instrumento droga não é o problema” e nos traz a importante reflexão de como “a visão incompleta das possibilidades humanas inviabiliza a superação de crises e preconceitos”, apontando que “o rompimento com os pensamentos rígidos e conservadores germinam possibilidades de perspectivas inovadoras”. Confira texto na íntegra abaixo:

A DINÂMICA DO USO ABUSIVO DE DROGAS LÍCITAS E ILÍCITAS NOS PROCESSOS INTERDEPENDENTES QUÍMICOS DO CONTEXTO CONTEMPORÂNEO BRASILEIRO

André Luís Toríbio Dantas- PPFH/UERJ

Meu principal interesse com essa reflexão concentra-se em colocar em discussão as possibilidades viáveis que proponham desconstruções de conceitos e idéias que atualmente são cristalizadas por respeitadas perspectivas científicas tradicionais do conhecimento médico pós-moderno, além de questionar a hegemônica aceitação em aparência de realidade que estas “verdades científicas” possuem no senso comum imaginário dominante de grande parcela da sociedade brasileira.

O significado estático e absoluto da conceituação denominada “dependência química” de drogas lícitas ou ilícitas, e os termos dogmatizados e pejorativos que “viciado”, “toxicômano” e “drogado” carregam legitimados por esta definição científica médica moderna, procuram inviabilizar alternativas de outras visões de mundo que não sejam fundamentadas na lógica mecanicista das sociedades ocidentais que se desenvolveram influenciadas principalmente pelos ideais liberais das Revoluções Francesa e Industrial.

Diariamente estamos em contato com a falência e a inabilidade cientificista que assiste indivíduos apresentando problemas com o uso abusivo e compulsivo de drogas lícitas e ilícitas, crises nos cuidados assistenciais fundamentais, que são agravados pelo estigma moralista que distancia a metodologia da abordagem médica pós-moderna com os cuidados singulares sensíveis e humanísticos que a Saúde Pública tem o dever constitucional de cumprir.

Concomitantemente ondas crescentes de violências, acidentes e crimes que ocorrem nestas sociedades, acompanhadas por situações de desequilíbrios econômicos, sociais e comportamentos competitivos individualistas, estão sendo relacionadas e determinadas devido ao uso abusivo e compulsivo de drogas que ocorrem com um crescente segmento populacional. Leia o resto deste post »


Jovem é detido por usar camiseta com folha da maconha em SP

31/10/2010

g1

Adolescente estava em audiência em fórum de Votuporanga.
Polícia foi chamada pelo promotor da Infância e Juventude.

Do G1 SP, com informações da TV Tem

Em Votuporanga, a 519 km de São Paulo, um adolescente de 14 anos foi parar na delegacia porque a camiseta que usava tinha o desenho de uma folha de maconha. Ele estava em uma audiência no fórum da cidade.

O promotor da Infância e Juventude, Eduardo Boiati, pediu para que o jovem trocasse a roupa ou voltasse outro dia. Como o adolescente se recusou, a polícia foi chamada. Ele vai responder por apologia ao crime. Ainda não foi decidido se será aplicada alguma medida restritiva ao jovem, como a internação na Fundação Casa.


Debate sobre drogas em encontro de cientistas sociais

29/10/2010

Ciência Hoje

Um debate necessário

Deixada de lado nas eleições para presidente, discussão sobre a descriminalização das drogas mobiliza o meio acadêmico. No encontro anual da Anpocs, intelectuais de diversas áreas defenderam a mudança da política brasileira contra as drogas, marcada pela proibição e pelo enfrentamento.

Por: Isabela Fraga

Publicado em 28/10/2010 | Atualizado em 28/10/2010

Um debate necessário Manifestantes defendem a descriminalização da maconha durante evento em Porto Alegre (foto: João Menna Barreto – CC 2.0 BY-NC).

As políticas públicas em relação às drogas são tema de discussão e objeto de reformulação de leis e de suas interpretações em vários países do mundo, inclusive no Brasil. Embora a discussão sobre o tema tenha sido deixada de lado nas eleições deste ano – pouco se disse além da posição “a favor” ou “contrados candidatos –, o cenário é diferente no meio acadêmico, no qual o debate em torno da descriminalização tende a assumir uma posição cada vez mais central.

A política de combate e proibição das drogas em vigor no Brasil é totalmente ineficiente

Exemplo dessa relevância do tema foi uma mesa-redonda realizada ontem (26) pela manhã no 34º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), que acontece esta semana em Caxambu (MG).

O debate foi coordenado pelo cientista político e ex-secretário nacional de segurança pública Luiz Eduardo Soares, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Intelectuais de diversas áreas convergiram em um ponto: a política de combate e proibição das drogas em vigor no Brasil é totalmente ineficiente e tem implicações graves nos campos da saúde e segurança. Mas qual o caminho a seguir?

Por uma política de redução de danos

Os psiquiatras Marcelo Santos Cruz, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Tarcisio Matos de Andrade, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), defendem uma política de redução de danos em relação às drogas, levando em consideração a inviabilidade de se eliminá-las totalmente.

Ambos, no entanto, apontam o despreparo dos profissionais de saúde de clínicas e hospitais brasileiros no tratamento de dependentes de drogas, especialmente do crack. Leia o resto deste post »


“Punir usuário de maconha não ajuda”

23/10/2010

Folha de S.Paulo – 23/10/2010

Consenso sobre a questão é um dos poucos alcançados por especialistas em debate sobre a droga na Folha

Psiquiatra contrário à legalização compara ideia de liberar uso a criação da Cracolândia; cientista defende erva

VÍDEOS DO DEBATE NO CANAL DE VÍDEOS DO DAR

Fotos Daniel Marenco/Folhapress

Defensor do uso medicinal da maconha lê seu manifesto durante o debate na Folha

REINALDO JOSÉ LOPES
EDITOR DE CIÊNCIA

É contraproducente e cruel punir usuários de maconha como se fossem criminosos, e falta uma distinção mais clara entre traficantes e simples consumidores da erva na legislação do país.
Esse talvez seja o único consenso entre especialistas reunidos ontem para discutir o tema em debate organizado pela Folha. Divididos entre defensores da legalização da venda da droga, do uso da maconha como remédio e da manutenção da proibição, os debatedores acabaram ficando entrincheirados.
Em parte, isso se deveu à plateia que lotou o auditório do jornal e, com frequência, interrompeu as falas com aplausos, vaias, gritos e xingamentos. “Pessoal, vamos deixar as pessoas se expressarem na inteireza de seus argumentos”, teve de pedir o jornalista Gilberto Dimenstein, colunista da Folha e moderador do debate.
Os membros da mesa, porém, também acabaram perdendo a paciência e partindo para o ataque em alguns momentos. A falta de acordo sobre a proporção real de usuários no mundo, ou sobre a gravidade dos efeitos da maconha quando comparada a drogas lícitas, como o álcool, ajudou a mostrar como o debate ainda é emocional.
Contrário à legalização, Ronaldo Laranjeira, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), disse que sua posição “era lógica do ponto de vista da saúde pública”.
“A experiência de legalização das drogas ilícitas está aqui perto da gente, é a Cracolândia”, ironizou, criticando o fato de que não há um movimento nacional para tentar controlar o uso do crack com a mesma expressão do que defende descriminalizar a maconha.
A jurista Maria Lúcia Karam, membro da ONG internacional Lead, favorável ao fim da proibição da venda de drogas, argumentou que a guerra contra substâncias ilícitas aumentou a violência e ainda fez baixar o preço delas mundo afora. “Legalizar é controlar os danos causados pela droga. As pessoas só morrem de overdose porque não sabem o que estão usando”, afirmou, sendo vaiada por membros da plateia. Leia o resto deste post »


EUA fiscalizarão leis contra maconha, independente de votações estaduais

16/10/2010

The New York Times – 16/10/2010

Adam Nagourney
Em Los Angeles (EUA)

*

Governo dos EUA pretende atuar agressivamente contra as leis de maconha da Califórnia

O Departamento de Justiça diz que pretende atuar agressivamente contra as leis de maconha da Califórnia, apesar dos eleitores do Estado terem aprovado uma iniciativa para legalização da droga, que será votada em 2 de novembro.

O anúncio por Eric H. Holder Jr., o secretário de Justiça, foi o mais recente lembrete de quanto o establishment cerrou fileira contra a iniciativa popular: dezenas de editoriais, candidatos, o governador Arnold Schwarzenegger e outras autoridades.

Ainda assim, apesar da oposição –ou talvez, até certo ponto, por causa dela– a medida, a Proposta 19, parece ter ao menos uma chance razoável de vencer, atraindo até o momento um apoio considerável nas pesquisas de uma coalizão de democratas, independentes e jovens eleitores à medida que o dia da eleição se aproxima. Caso isso aconteça, representaria a consolidação de uma mudança cultural na Califórnia, onde a maconha medicinal é legal desde 1996 e onde a droga é celebrada na cultura popular desde pelo menos os anos 60.

Mas poderia lançar o Estado mais populoso do país em um conflito complicado com o governo federal, que os oponentes da proposta dizem que deveria fazer os eleitores da Califórnia pensarem duas vezes antes de apoiá-la.

Washington em geral tem feito vista grossa enquanto uma crescente indústria da maconha medicinal tem prosperado aqui e em outros 14 Estados e no Distrito de Colúmbia. Entretanto, a posição de Holder, revelada em uma carta nesta semana para nove ex-chefes da DEA (a agência de combate às drogas dos Estados Unidos), que se tornou pública na sexta-feira– deixa claro que a legalização da droga para uso recreativo provocaria um maior escrutínio por parte de Washington.

Holder não declarou plenamente os motivos para a decisão, mas mencionou a relutância do governo federal de fiscalizar leis antinarcóticos de forma diferente em Estados diferentes. Leia o resto deste post »


Se a droga é legal, tudo bem…

16/10/2010

Folha de S.Paulo

40, Rota homenageia cervejarias e policiais

Secretário diz que unidade é prestigiada

DE SÃO PAULO

Empresários do setor de cervejas no país dominaram ontem o seleto grupo de homenageados na festa de 40 anos da Rota, unidade especial da PM de São Paulo.
Dos 15 homenageados, seis representavam AmBev, Schincariol, Femsa e Heineken. O grupo recebeu das mãos do comandante da unidade, tenente coronel Paulo Adriano Telhada, e outros oficiais certificados de “Amigos da Rota” pelas contribuições dadas ao grupo.
De acordo com estudos da Polícia Civil paulista, parte dos casos de homicídios ocorridos no Estado tem alguma ligação com o consumo de álcool e acontece em discussões em bares. Leia o resto deste post »


Entrevista exclusiva: Pedro Gabriel Delgado fala sobre crack

14/10/2010

O fantasma do crack tem ganhado cada vez mais peso no debate midiático e ultimamente eleitoral. Como é praxe dentro do proibicionismo, se faz muito terrorismo e se informa muito pouco. O uso é encarado já a priori como danoso, e o mal uso é considerado consequência da própria substância, não do que a envolve. Recentemente o governo federal decidiu encarar o problema, pautando-se inclusive pela inter-setorialidade. O nome do programa: “Programa de enfrentamento ao crack”. O viés é o mesmo, o fetiche da droga como bode expiatório.

 

Médico psiquiatra e coordenador de saúde mental do Ministério da Saúde desde 2000, Pedro Gabriel Delgado defende mudanças na atual lei de drogas, e uma abordagem mais complexa para o problema do uso problemático de crack. O DAR conversou com ele com exclusividade no final de agosto, quando da realização da II Conferência Latino-americana sobre políticas de drogas, realizada no Rio de Janeiro.

 

Pedro, como você situa o problema do crack hoje no Brasil?

 

Eu sempre tenho que dizer que é muito grave o problema, senão as pessoas acham que ao se relativizar não esta se dando a devida importância. O crack no Brasil é um problema muito grave e a principal componente desta gravidade é a vulnerabilidade das pessoas que mais recentemente, nos últimos cinco anos, começaram a consumir esse produto, que é um produto impuro, derivado de uma série de adaptações que o próprio mercado da droga faz em função até do desmantelamento da possibilidade de fazer o cloridrato de cocaína em território brasileiro, enfim, existem vários questões que são fruto do mercado da droga.

 

Da ilegalidade do mercado.
Da ilegalidade, inclusive, sem dúvida, porque é por conta da repressão ao mercado e a produção do cloridrato é que se produzem essas formas intermediárias. Aqui na América Latina, na Argentina, isso se passou alguns anos antes, e nos países da América do Norte, Canadá, EUA, isso começou no início dos anos 1990. Aqui no Brasil estava restrito a São Paulo, aproximadamente nos últimos cinco anos é que se estendeu a questão pro país como um todo e tomou essa dimensão grave que tem. Eu acho que é preciso se levar em conta esse componente que eu falei, da vulnerabilidade. E também nós temos discutido no Ministério da Saúde com o comitê de profissionais multidisciplinares que nos assessora, inclusive pessoas que fazem estudos qualitativos de natureza antropológica com os próprios consumidores, quais são os padrões de consumo dessa droga que tem um potencial de dependência muito grande e que traz também efeitos colaterais pra saúde geral da pessoa: efeitos pulmonares, efeito de emagrecimento ,debilitação, de queda de imunidade, de exposição ao risco de contaminação com hepatite C, B… A associação com o aumento da transmissão do vírus HIV não está ainda comprovada, mas como existe também uma associação com comportamentos de risco – sexo inseguro, prostituição, etc – de fato tem um conjunto de situações negativas que se associa ao consumo e caracteriza essa vulnerabilidade.

 

Entretanto, é importante também discutir os padrões de consumo que existem também nesse cenário desfavorável. Se tomarmos para efeito de raciocínio os artigos e as experiências dos colegas do Canadá, com um contexto que não é da mesma vulnerabilidade do Brasil, eles têm relatos de acompanhamento de pessoas que usam crack há 20 anos. De pessoas que usam crack com certo grau de estabilização há mais de 10, 15, 20 anos. Então nós também estamos investigando no Brasil que existe aquele consumidor de crack que constrói mecanismos de resiliência, de auto-defesa, e que não se deixa devastar de uma maneira assim tao dramática como se vê mesmo no cenário aí das ruas, dessas pessoas, especialmente as muito jovens, que vivem em situação de rua e que consomem a droga. Leia o resto deste post »


Cartas na mesa – Pra não dizer que não falei de drogas

11/10/2010

“Me contem, me contem aonde eles se escondem?
atrás de leis que não favorecem vocês
então por que não resolvem de uma vez:
ponham as cartas na mesa e discutam essas leis” Planet Hemp

A seção Cartas na mesa é composta por opiniões de leitores e membros do DAR acerca das drogas, de seus efeitos político-sociais e de sua proibição, e também de suas experiências pessoais e relatos sobre a forma com que se relacionam com elas. Vale tudo, em qualquer formato e tamanho, desde que você não esteja aqui para reforçar o proibicionismo! Caso queira ter seu desabafo desentorpecido publicado, envie seu texto para coletivodar@gmail.com  e ponha as cartas na mesa para falar sobre drogas com o enfoque que quiser.

Na semana passada mais uma vez estivemos diante de uma denúncia de desrespeito aos direitos humanos em clínicas de “recuperação” de dependentes químicos.O redutor de danos e educador social Dênis Petuco tem um artigo interessante e esclarecedor sobre o tema, publicado pela primeira vez no livro Outras palavras sobre o cuidado de pessoas que usam drogas, editado Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul. Dênis, que já passou por uma experiência de internação num local desses em 1989, cedeu o artigo para o Cartas na Mesa, no qual conta um pouco de sua experiência contextualizando-a num panorama mais amplo, confiram abaixo:

Pra não dizer que não falei de drogas

O cuidado de pessoas que usam drogas e a luta antimanicomial

Em 1990, Austragésilo Carrano lançava “Canto dos malditos”, depoimento sobre os horrores do cotidiano manicomial, com a potência característica dos textos escritos na primeira pessoa. Já ali, a lembrança de que não foram apenas os loucos a sofrerem mortificações por detrás dos muros dos hospícios; nas casas verdes (públicas ou privadas) espalhadas pelo Brasil afora, sempre houve (houve?) lugar garantido para as pessoas que usam álcool e outras drogas.

Mas não é do livro de Carrano que eu gostaria de falar, e sim de outro lançado em 1993. Em “Ala fechada”, Caho Lopes descreve sua passagem por uma clínica especializada no tratamento de pessoas que usam drogas, em Porto Alegre. A história, ocorrida em 1992, quando o autor tinha 28 anos, rendeu não apenas o livro, mas uma série de reportagens para a televisão, algumas das quais podem ser encontradas ainda hoje no YouTube (basta que se escreva o nome do autor). Mas não chegou a virar filme como o livro de Carrano, cuja versão cinematográfica foi idealizada por Kátia Lund, com o nome de “Bixo de Sete Cabeças”.

Em “Ala fechada”, o pesadelo manicomial é descrito a partir das especificidades das pessoas que usam drogas. Maus tratos, tortura, cárcere privado, uso indiscriminado de fármacos. Qualquer tipo de questionamento com respeito ao modelo de recuperação era identificado como “sintoma”, como “manipulação”. Remédios eram utilizados como forma de castigo, e não como parte um processo terapêutico. Do lado de fora, os familiares eram induzidos a pensar que estavam fazendo o melhor pelo seu filho. Logo nas primeiras páginas, vemos o dono da clínica explicar ao pai de Klaus (personagem de Caho), que o tratamento dura em média dois anos. Sem visitas.

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Em 1989, eu passei por este mesmo lugar batizado no livro com o nome de “Jirinovski”, ainda que no relato de Caho ele não se situe no mesmo endereço do lugar em que fui internado; é que pouco tempo depois de eu ter passado por lá (três anos antes da passagem de Caho), ocorreu um motim que resultou na interdição do prédio. No livro, a Jirinovski fica em um bairro chamado “Campo Novo”, numa chácara localizada “em média uns trinta e cinco minutos de Petrópolis” (LOPES, 1997, p. 31); já eu, fiquei em uma casa situada num bairro próximo ao centro de Porto Alegre, a não mais de 15 minutos de Petrópolis, se muito[1].

No livro de Caho, o referido motim emerge em meio às reminiscências matutinas do personagem que encarna o dono da clínica. Lembra do dia em que recebeu um telefonema de um dos seguranças informando que os internos tinham sequestrado uma estagiária, e mantinham-se isolados no andar de cima. Ao chegar, o Dr. Edgar[2] percebe que os “rebeldes” entraram em contato com a imprensa. De uma das janelas do prédio, voltada para a calçada, em frente às câmaras de televisão, um interno chamado Afonso mantém um caco de vidro encostado no pescoço da estagiária. O que segue, o livro descreve assim:

Afonso denunciou, perante toda a mídia e cambada de curiosos ali presentes, os abusos e maus tratos a que eram submetidos. Contou praticamente tudo: pacientes encarcerados por dois, três, até mesmo quatro anos sem sequer se comunicar com a família; das periódicas revistas, feitas até nos orifícios anais, em que procuravam possíveis armas fabricadas pelos pacientes; abusos sexuais por parte de seguranças e chefes de plantão, o escárnio dos psiquiatras para com eles; enfim, tudo o que a clínica sempre manteve entre suas paredes. (LOPES, 1997, p. 33) Leia o resto deste post »


Estudos indicam tendência liberalizante do aborto no mundo

09/10/2010

G1

Leia também: Feminismo e anti-proibicionismo – um diálogo necessário na luta contra as opressões

Entre 1996 e 2009, ao menos 20 nações aprovaram leis mais liberais que as do Brasil.

BBC

A maioria dos países que introduziram mudanças nas suas legislações sobre aborto desde 1996 adotaram regras mais permissivas sobre a prática, apontam estudos recentes publicados pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pelo Instituto Guttmacher, especializado em saúde reprodutiva.

Entre 1996 e 2009, ao menos 47 de 192 países da ONU aprovaram leis com artigos mais liberalizantes, segundo o World Population Policies 2009, da ONU.

Nesse mesmo período, outros 11 países endureceram suas legislações sobre o tema.

Dos 47 países que liberalizaram sua legislação, ao menos 21 aprovaram leis com artigos mais liberalizantes que os do Brasil, onde o tema se transformou em uma das principais questões na reta final da campanha presidencial.

O assunto divide o partido da candidata do PT, Dilma Rousseff. O candidato do PSDB, José Serra, diz ser contra a legalização do aborto.

Liberalizante
Nos 21 países que adotaram leis mais abertas que as do Brasil, entre as razões em que prática abortiva é autorizada estão o caso de haver má-formação fetal, de a mãe não ter condições socioeconômicas para criar o filho ou de a mãe solicitar o procedimento.

Mas, no panorama geral, em 2009, “quase todos os países permitiam o aborto para salvar a vida das mulheres”, relata o World Population Policies. A permissão ao aborto por desejo da mãe passou a valer em 29% dos países da ONU, ante 10% em 1980. Leia o resto deste post »


Clínica de reabilitação de Passo Fundo/RS é suspeita de maus tratos

06/10/2010

do GAZ

A Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) investiga uma clínica de recuperação de dependentes químicos na periferia de Passo Fundo por maus tratos. Os 72 internos estariam sofrendo maus tratos, como privação de alimentos e espancamento.

Por meio de denúncias anônimas, a polícia deu início às investigações e, com mandado de busca, entrou na clínica no final da manhã desta terça-feira, 5. Os policiais teriam sido recebidos com pedidos de socorro pelos internos, que teriam dito que estavam cansados de apanhar. Os pacientes contaram que eram agredidos com tapas, socos e, inclusive, com golpe de meias recheadas com sabonetes. Os policiais encontraram vestígios de sangue nos colchões, nas paredes e no teto.

Dos 72 pacientes internados, 49 sofrem de esquizofrenia e 23 são dependentes químicos – 14 são adolescentes entre 15 e 18 anos incompletos, entre eles quatro meninas. Todos foram encaminhados ao Departamento Médico Legal para exame de lesões corporais.

O delegado responsável pelo caso, Mário Pezzi, afirmou que há fortes indícios de tortura. Quatro pessoas que estavam trabalhando na clínica no momento da ação policial foram conduzidas para a DPCA, onde estão sendo ouvidas. No final da tarde, o delegado deve anunciar por quais crimes os responsáveis pela clínica devem ser indiciados e se vai pedir a prisão dos mesmos.

A ação da policia foi acompanhada pelo Conselho Tutelar da Criança e do Adolescente, pelo Ministério Público e pela Vigilância Sanitária, com apoio da Brigada Militar.


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