A Resposta da Califórnia

08/11/2010

Mario Vargas Llosa

O Estado de S.Paulo, 07/11/2010
Os eleitores do Estado da Califórnia rejeitaram na terça-feira a legalização do cultivo e do consumo da maconha por 53% dos votos a 47%, uma decisão que considero muito equivocada. A legalização teria sido um passo importante na busca de uma solução eficaz para o problema da delinquência vinculada ao narcotráfico que, segundo o que acaba de ser anunciado oficialmente, já causou este ano o impressionante total de 10.035 mortes no México.

Esta solução passa pela descriminalização das drogas, ideia que há pouco tempo era inaceitável para a maior parte de uma opinião pública convencida de que a repressão policial aos produtores, vendedores e usuários de entorpecentes seria o único meio legítimo de pôr fim a semelhante praga.

A realidade revelou o quanto esta ideia é ilusória, à medida que todos os estudos indicavam que, apesar das astronômicas somas investidas e da gigantesca mobilização de efetivos para combatê-las, o mercado das drogas continuou a crescer. Ele se estendeu por todo o mundo, criando cartéis mafiosos de imenso poder econômico e militar que – como vemos no México desde que o presidente Felipe Calderón decidiu enfrentar os chefes traficantes e suas gangues de mercenários – pode combater em pé de igualdade, graças ao seu poderio, com os Estados nos quais conseguiram se infiltrar por meio da corrupção e do terror.

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Maconha: como ela age no organismo e seu uso como remédio

07/11/2010

IdMed

Escrito por Renato Malcher-Lopes
Qui, 23 de Setembro de 2010 11:59

Maconha como ela age no organismo e seu uso como remédioComo funciona o efeito da maconha no organismo em geral e no cérebro?

O principal componente ativo da maconha, o THC, se liga a dois tipos principais de receptores: o CB1, mais proeminente no sistema nervoso central, e o CB2, mais encontrado no resto do organismo. Esses receptores são ativados por substâncias produzidas por diversos tipos celulares, incluindo os neurônios. Essas substâncias são, por isso, chamadas de canabinoides endógenos, ou endocanabinoides. São como “maconhas” produzidas pelo nosso organismo. Os endocanabinoides são protagonistas numa complexa rede de mecanismos fisiológicos, metabólicos, sensoriais, comportamentais, cognitivos e emocionais, que agem de forma integrada para manter a homeostase (equilíbrio do ambiente interno do organismo) em situações de normalidade e em situações pós-estresse. Basicamente, o sistema endocanabinoide, composto pelos endocanabinoides per si e seus receptores, funciona como orquestrador de alterações de ajuste a flutuações normais e, sobretudo, como coordenador de ajustes necessários ao retorno do organismo à normalidade após a adaptação aguda a algum tipo de estresse. Por isso, o THC da maconha gera simultaneamente e de forma mais intensa um conjunto grande de efeitos dos quais nosso próprio organismo lança mão normalmente para lidar com flutuações diárias e/ou situações adversas. Assim, a maconha causa sensação de relaxamento psicológico, relaxamento muscular e maior capacidade de introspecção (aumenta o foco e a atenção em aspectos específicos e diminui a atenção em aspectos dispersos do ambiente). Aumenta a percepção, a sensibilidade e a apreciação lúdica, estética e hedônica de todos os sentidos (olfação, gustação, audição, tato, visão e propriocepção). Diminui a sensação de dor, diminui a ansiedade. Aumenta a criatividade e dificulta o pensamento objetivo, que é substituído por uma capacidade atípica de integração de ideias, conceitos e emoções de forma mais flexível e subjetiva. Melhora a capacidade de gerar imagens mentais. Reduz transitoriamente a memória de curto prazo e, por isso, distorce a noção de tempo. Aumenta o apetite, atrasa a sensação de saciedade e elimina náuseas.

Os efeitos fisiológicos do sistema endocanabinoide e, por conseguinte, muitos dos efeitos da maconha são em grande parte resultantes da inibição do chamado sistema nervoso autônomo simpático (que atua em situações de emergência que demandam luta ou fuga) e pela ação estimuladora, ou permissiva, que o THC exerce sobre o chamado sistema nervoso autônomo parassimpático (que predomina em situações de normalidade). Essa ação sobre o sistema nervoso autônomo, em concerto com a ação dos canabinoides sobre circuitos do sistema nervoso central, promove, por exemplo, as sensações de bem-estar e calma, relaxamento muscular, redução da dor, aumento do apetite e da mobilidade gástrica, redução da sensação de náusea, aumento do armazenamento de reservas nutricionais (gordura e glicogênio), atenuação da resposta imune e inflamatória, e a estimulação da interação social e afetiva. Todos esses efeitos são transitórios e reversíveis. Em doses excessivas, ou quando abusada por um longo período, muitos dos efeitos da maconha, mas nem todos, serão os opostos dos descritos acima. Embora seja normalmente ansiolítica, em determinadas situações, a maconha pode potencializar o mau humor e a ansiedade, e eventualmente gerar estados paranoides moderados e transitórios.

Onde o THC é metabolizado e qual seu caminho no organismo após isso?

O THC é metabolizado no fígado e seus subprodutos são eliminados na urina. Por causa de sua natureza gordurosa, o THC associa-se a reservas endógenas de gordura e pode permanecer em baixas quantidades por muitos dias no organismo.

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Remédio feito à base de maconha pode chegar ao Brasil

06/11/2010

Veja

O Sativex, remédio feito à base de maconha, pode estar a caminho do Brasil. A empresa farmacêutica britânica GW Pharma revelou ao site de VEJA que iniciou discussões com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre a possibilidade de vender o medicamento — indicado para tratar sintomas de esclerose múltipla — no país. “Temos um interesse muito grande no mercado brasileiro e gostaríamos de obter a aprovação para o remédio na América do Sul”, afirma Mark Rogerson, relações públicas da empresa.

Segundo Rogerson, a intenção da empresa é dar início ao processo formal de aprovação do medicamento. Uma comissão da Anvisa já teria visitado os laboratórios onde o Sativex é produzido, na Inglaterra. A unidade brasileira da Bayer Schering Pharma, que comercializa o remédio na Grã-Bretanha, também afirma que está avaliando a possibilidade de lançar o Sativex no Brasil.
De acordo a legislação brasileira, medicamentos que contenham em sua composição extratos da maconha são proibidos, mas a lei também prevê a hipótese de autorização para casos específicos. Leia o resto deste post »

Cientistas brasileiros querem derrubar barreiras à pesquisa com maconha

06/11/2010

Veja

Em países como Estados Unidos, Canadá e Inglaterra, a indústria farmacêutica avança na produção de remédios com substâncias da planta. Entraves legais impedem investigações similares no Brasil

Jones Rossi
Linha de produção do Sativex, medicamento feito à base de substâncias extraídas da maconha.Linha de produção do Sativex, medicamento feito à base de substâncias extraídas da maconha. (Divulgação) 

Foi um brasileiro, o médico Pernambuco Filho, durante a II Conferência do Ópio da Liga das Nações, em 1924, que deu início à onda de combate à maconha no mundo inteiro

A maconha foi trazida ao Brasil por escravos africanos, ainda durante o período colonial. Disseminou-se entre índios, mais tarde entre brancos e, por algum tempo, sua produção chegou a ser estimulada pela coroa. Até a rainha Carlota Joaquina habituou-se a tomar chá feito com a erva, depois que a corte portuguesa se mudou para o Brasil, em 1808. A partir de meados do século XIX, circulou por aqui a ideia – importada da França – de que a Cannabis poderia ser usada com fins medicinais. Como anunciava uma propaganda das cigarrilhas Grimault, em 1905, a erva serviria para tratar desde “asmas e catarros” até “roncadura e flatos”.Em 1924, contudo, começou a difundir-se, não apenas no Brasil, mas em âmbito mundial, a tese de que o consumo da maconha era um mal. E um médico brasileiro teve papel importante nessa história. Leia o resto deste post »


Jovem é detido por usar camiseta com folha da maconha em SP

31/10/2010

g1

Adolescente estava em audiência em fórum de Votuporanga.
Polícia foi chamada pelo promotor da Infância e Juventude.

Do G1 SP, com informações da TV Tem

Em Votuporanga, a 519 km de São Paulo, um adolescente de 14 anos foi parar na delegacia porque a camiseta que usava tinha o desenho de uma folha de maconha. Ele estava em uma audiência no fórum da cidade.

O promotor da Infância e Juventude, Eduardo Boiati, pediu para que o jovem trocasse a roupa ou voltasse outro dia. Como o adolescente se recusou, a polícia foi chamada. Ele vai responder por apologia ao crime. Ainda não foi decidido se será aplicada alguma medida restritiva ao jovem, como a internação na Fundação Casa.


George Soros doa US$ 1 milhão para campanha de legalização da maconha

28/10/2010

Revista Época

O multibilionário e investidor George Soros doará US$ 1 milhão para a campanha a favor da Proposição 9, de legalização da maconha nos Estrados Unidos. Segundo ele, aceitar a proposta seria um passo à frente.

A doação faz de Soros o segundo maior doador da campanha, atrás apenas de Richard Lee, um médico de Oakland entusiasta do uso medicinal da droga. Ele gastou pelo menos US$ 1,5 milhão com a proposição, segundo o site do Los Angeles Times.

Isso aumenta as chances para a aceitação da proposição, que havia angariado US$ 2,4 milhões até o meio de outubro para lançar, na terça-feira, uma campanha publicitária na TV a cabo na região de Los Angeles.

Ethan Nadelmann, diretor-executivo da Drug Policy Alliance, um dos principais defensores da reforma das leis relacionadas às drogas, confirmou a contribuição de Soros. Leia o resto deste post »


“Punir usuário de maconha não ajuda”

23/10/2010

Folha de S.Paulo – 23/10/2010

Consenso sobre a questão é um dos poucos alcançados por especialistas em debate sobre a droga na Folha

Psiquiatra contrário à legalização compara ideia de liberar uso a criação da Cracolândia; cientista defende erva

VÍDEOS DO DEBATE NO CANAL DE VÍDEOS DO DAR

Fotos Daniel Marenco/Folhapress

Defensor do uso medicinal da maconha lê seu manifesto durante o debate na Folha

REINALDO JOSÉ LOPES
EDITOR DE CIÊNCIA

É contraproducente e cruel punir usuários de maconha como se fossem criminosos, e falta uma distinção mais clara entre traficantes e simples consumidores da erva na legislação do país.
Esse talvez seja o único consenso entre especialistas reunidos ontem para discutir o tema em debate organizado pela Folha. Divididos entre defensores da legalização da venda da droga, do uso da maconha como remédio e da manutenção da proibição, os debatedores acabaram ficando entrincheirados.
Em parte, isso se deveu à plateia que lotou o auditório do jornal e, com frequência, interrompeu as falas com aplausos, vaias, gritos e xingamentos. “Pessoal, vamos deixar as pessoas se expressarem na inteireza de seus argumentos”, teve de pedir o jornalista Gilberto Dimenstein, colunista da Folha e moderador do debate.
Os membros da mesa, porém, também acabaram perdendo a paciência e partindo para o ataque em alguns momentos. A falta de acordo sobre a proporção real de usuários no mundo, ou sobre a gravidade dos efeitos da maconha quando comparada a drogas lícitas, como o álcool, ajudou a mostrar como o debate ainda é emocional.
Contrário à legalização, Ronaldo Laranjeira, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), disse que sua posição “era lógica do ponto de vista da saúde pública”.
“A experiência de legalização das drogas ilícitas está aqui perto da gente, é a Cracolândia”, ironizou, criticando o fato de que não há um movimento nacional para tentar controlar o uso do crack com a mesma expressão do que defende descriminalizar a maconha.
A jurista Maria Lúcia Karam, membro da ONG internacional Lead, favorável ao fim da proibição da venda de drogas, argumentou que a guerra contra substâncias ilícitas aumentou a violência e ainda fez baixar o preço delas mundo afora. “Legalizar é controlar os danos causados pela droga. As pessoas só morrem de overdose porque não sabem o que estão usando”, afirmou, sendo vaiada por membros da plateia. Leia o resto deste post »


México maconha e toupeiras

22/10/2010

Helena Ortiz (conheçam o blog dela!)

O que pensarão os nossos pósteros ao verem uma foto como essa? Poderão compreender que o México, que em 2010 ainda tinha 23 milhões de habitantes em estado de fome crônica, queimasse 134 toneladas de uma planta que valia, por baixo, o equivalente a 560 milhões de reais?

 

Isso me lembra Fahrenheit 451, o filme de Truffaut baseado no romance de Ray Bradbury em que opiniões próprias eram proibidas e para isso queimavam-se os livros – tudo controlado pela televisão. Mas as pessoas resistem ao decorar livros inteiros.
Houve outros momentos de controle de leitura (e idéias) ao longo da história. Sempre há alguém querendo impor o pensamento único. Leia o resto deste post »

Proposição 19 sai até na Veja!

21/10/2010

http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/california-vai-votar-a-liberacao-da-maconha

Estados Unidos

Califórnia vai votar a liberação da maconha

Proposição 19 legaliza uso e cultivo para fins pessoais e recreativos

BBC
Ativistas promovem evento a favor da Proposição 19, que legaliza o uso e cultivo de maconha na CalifórniaAtivistas promovem evento a favor da Proposição 19, que legaliza o uso e cultivo de maconha na Califórnia (Justin Sullivan/Getty)

Cerca de 1,7 milhão de pessoas foram presas nos EUA em 2008 por acusações relacionadas às drogas, segundo o centro de estatísticas judiciais. Mais de 50% dessas prisões foram por posse de maconha

Há quem acredite que em Los Angeles, nos Estados Unidos, exista mais dispensários de maconha que cafés da rede Starbucks. No entanto, fumar maconha no país continua sendo ilegal. Pelo menos até o próximo dia 2 de novembro, quando a Califórnia será o primeiro estado a votar a legalização do uso e cultivo da maconha para fins pessoais e recreativos.

Desde 1996, o uso médico da droga já é legal na Califórnia, bem como em outros treze estados onde se reconhece legalmente as propriedades curativas da cannabis.

No entanto, sob as leis anti-narcóticos, cerca de 1,7 milhão de pessoas foram presas em todo o país em 2008 por acusações relacionadas à posse, uso e comercialização de drogas, segundo o centro de estatísticas judiciais. Mais de 50% dessas prisões foram por posse de maconha.

Esse alto índice tem explicação: a maconha é a terceira droga recreativa mais popular, depois do álcool e do tabaco, segundo dados da Organização Nacional para a Reforma das Leis da Maconha. Leia o resto deste post »


Cultivo de maconha é mais rentável que de uvas na Califórnia, dizem democratas

21/10/2010

O Globo

RIO – O argumento mais persuasivo para legalizar a maconha pode ser apenas um cifrão. Cultivo de maconha da Califórnia atinge US$ 14 bilhões, segundo relatório divulgado pelo estado. A imprensa democrata salienta que o cultivo de cannabis sativa – no estado americano permitido para fins medicinais – ultrapassa em rentabilidade a cultura do vinho que rende US$ 2 bilhões, como mostra matéria publicada no site da rede de TV americana NBC.

Torná-la legal, como sustenta a Proposição 19 que irá à votação em 2 de novembro, pode permitir que bancos emprestem dinheiro, negócios contratem pessoas e criem uma rede de distribuição e de varejo para o negócio.

No condado de Mendocino, estima-se que ao menos a metade da economia dependa do cultivo da erva. De acordo com cálculos de partidários da legalização, o Estado da Califórnia poderia arrecadar US$ 1,4 bilhão em impostos, caso a legislação mudasse.

No entanto, aponta a reportagem, existe sempre a ameaça de que o governo venha a reprimir o comércio, o que pode afastar investidores avessos a riscos.


Cientistas criam biodiesel de maconha

08/10/2010

Do R7

Planta cresce até em solo infértil; combustível aproveita 97% do óleo da semente

 

Wikimedia Commons
Wikimedia Commons

Plantação de maconha industrial na França; planta, que será usada na fabricação de biodiesel, pode ser cultivada em solo infértil

Pesquisadores da Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos, descobriram que a fibra da Cannabis sativa (nome científico da maconha), chamada de cânhamo industrial, tem propriedades que a tornam uma matéria-prima viável e atraente para a produção de biodiesel, um combustível sustentável feito de plantas renováveis. 

Pesquisa aponta liderança do SIM em plebiscito pela legalização da maconha na Califórnia

05/10/2010

2 de novembro é a data de uma eleição que pode de fato mudar algo sobre políticas de drogas. Diferente do segundo turno no Brasil, onde dois candidatos proibicionistas se enfrentam, o plebiscito que decidirá sobre a aprovação ou não da Proposta 19 na Califórnia pode ter impactos nas políticas de drogas do mundo inteiro. A Proposta 19 legaliza produção, venda e consumo de maconha para maiores de 21 anos no estado, o que geraria 1,4 bilhão de dólares em impostos.

Segundo pesquisa divulgada no último dia 26 de setembro, 49% das pessoas pretende votar sim, enquanto 42% opta por enquanto pelo não. No começo de julho o SIM perdia por quatro pontos percentuais.

8 entre 10 entrevistados já tinham ouvido falar da proposta e se mostram interessados no resultado do plebiscito. 60% dos democratas disseram aprovar a 19, contra apenas 27% de republicanos.

Há uma intrigante diferença de gênero também: enquanto no caso dos homens o SIM vence (54% contra 38%), no caso das mulheres há uma vitória do NÃO por dois pontos percentuais (46% contra 44%). Os jovens são os principais apoiadores: na faixa das pessoas com menos de 40 anos o placar é 59% favoráveis ao SIM contra 33% do NÃO; já no caso dos maiores de 65 anos, a oposição a proposta vence (53% a 36%).

A pesquisa também faz um recorte racial, apontando vitória do SIM nas três categorias apresentadas: 50 a 42 no caso dos “brancos não-hispânicos”, 46 a 43 nos “latinos” e 47 a 44 nos “afro-americanos, asiáticos-americanos e americanos nativos”.


Mais um capítulo do debate sobre maconha medicinal na Folha de S.Paulo

27/09/2010

Depois do Neip enviar uma nota ao jornal Folha de S.Paulo refutando parte da posição de Rafael Guimarães dos Santos, publicada em resposta a polêmica entre neurocientistas e o fundamentalista Ronaldo Laranjeira, agora o próprio Rafael escreveu ao jornal esclarecendo alguns pontos:

“Em artigo recentemente publicado na Folha de São Paulo (Tendências/Debates, 22/09), me expressei mal em vários pontos. Errei ao escrever: “Também causa estranhamento que este grupo de cientistas [Signatários da Carta], que pretendia iluminar o debate com Laranjeira e Marques, tenha ignorado as evidências fornecidas por dados científicos”; o correto teria sido dizer: “não há ainda suficientes estudos clínicos controlados realizados sobre a maconha”. E, em seguida, esclarecer ao leitor leigo que os estudos clínicos controlados são ideais, porém não são a única maneira de se verificar a eficácia terapêutica ou aplicação promissora de uma substância, lembrando também que nem todos os medicamentos atualmente consumidos passam por testes clínicos para seus diversos usos. Existem outros critérios científicos de observação, e esses são especialmente válidos no caso de uma droga proibida, pois devido à situação de ilegalidade é quase impossível realizar estudos clínicos controlados com a maconha in natura. Neste sentido, os Signatários da Carta também estão corretos ao afirmar que existe “evidência científica” de que a maconha tem potenciais terapêuticos para o tratamento da dependência, e que existem evidências antigas do uso medicinal da maconha para o tratamento da asma.

Outro ponto que ficou pouco claro em meu texto diz respeito à maconha medicinal fumada. A inalação da fumaça, como se sabe, pode ser prejudicial à saúde. Mas, faltou esclarecer que em muitos lugares onde o uso medicinal da maconha é aprovado, se enfatiza o uso oral ou sublingual; embora também exista o uso fumado da maconha medicinal, esta prescinde da fumaça e a inalação não é recomendação médica em nenhum lugar.

Por fim, considerando que este embate entre cientistas ocorre num jornal de grande circulação e dentro de um contexto político específico, gostaria de deixar clara minha posição neste importante debate público: é imperativa a realização de mais pesquisas na área; as atuais políticas proibicionistas impedem o avanço da pesquisa cientifica; é fundamental que seja criada uma agência brasileira para estudos e regulamentação dos potenciais terapêuticos da maconha; o uso medicinal e não-medicinal da maconha e de seus derivados deve ser legalizado; são absolutamente injustas as alegações de Laranjeira e Marques de que o grupo dos Signatários da Carta é “anti-científico” e representa um “lobby da maconha”.

Rafael Guimarães dos Santos, Doutorando em Farmacologia pela Universidade Autônoma de Barcelona e Pesquisador do NEIP (www.neip.info)”


Artigo sobre conflito acerca da maconha medicinal obriga Neip a prestar esclarecimento

25/09/2010

Com preocupações estritamente farmacológicas, evitando tomar partido no conflito acerca da criação da agência brasileira de pesquisa e regulamentação de maconha medicinal, Rafael Guimarães dos Santos, doutorando em farmacologia e membro do Neip(Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos), publica artigo que foge da questão central e despolitiza o debate entre proibicionistas e antiproibicionistas. Infelizmente o autor, mesmo sendo membro de um grupo declaramente antiproibicionista, parece ignorar o fato da ciência ser um campo de disputa que, como qualquer outro, não está livre do conflito entre diferentes forças.  Neip presta esclarecimentos em nota pública, colocando que Rafael não reflete a opinião do Núcleo.

NOTA PÚBLICA DO NEIP

O NEIP (Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos, www.neip.inf) vem a público para esclarecer que o artigo publicado por Rafael Guimarães dos Santos, pesquisador do Neip, reflete apenas a sua opinião pessoal e não a do Núcleo. O NEIP considera que o tema da maconha não se reduz aos estudos científicos sobre os seus efeitos, mas se trata de uma questão de direitos civis e democráticos dos milhões de consumidores dessa planta que não querem que continue a violência que a guerra ao tráfico acarreta. A própria investigação científica é obstaculizada pela proibição. Por isso, somos a favor da legalização da maconha, além de defendermos uma intensificação dos estudos sobre seus potenciais terapêuticos.

assinam:
Beatriz Labate
Edward MacRae
Henrique Carneiro
Maurício Fiore
Sandra Goulart

Artigo original de Rafael Guimarães dos Santos

São Paulo, quarta-feira, 22 de setembro de 2010

FOLHA DE SÃO PAULO – TENDÊNCIAS/DEBATES

Falta ciência na discussão sobre a maconha
RAFAEL GUIMARÃES DOS SANTOS

Nem os argumentos a favor nem os contrários à maconha parecem estar embasados, em certos aspectos, em provas realmente científicas
Realmente, causa espanto como cientistas podem assumir posturas sem, aparentemente, examinar profundamente a literatura científica sobre a maconha.
Neste espaço, trato de tentar amenizar as posturas dos distintos grupos de pesquisadores, oferecendo dados científicos.

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Cartas na mesa – “O dispositivo das drogas”

19/09/2010

“Me contem, me contem aonde eles se escondem?
atrás de leis que não favorecem vocês
então por que não resolvem de uma vez:
ponham as cartas na mesa e discutam essas leis” Planet Hemp

A seção Cartas na mesa é composta por opiniões de leitores e membros do DAR acerca das drogas, de seus efeitos político-sociais e de sua proibição, e também de suas experiências pessoais e relatos sobre a forma com que se relacionam com elas. Vale tudo, em qualquer formato e tamanho, desde que você não esteja aqui para reforçar o proibicionismo! Caso queira ter seu desabafo desentorpecido publicado, envie seu texto para coletivodar@gmail.com  e ponha as cartas na mesa para falar sobre drogas com o enfoque que quiser.

Desta vez trazemos um artigo apresentado noIII Congresso Brasileiro Psicologia: Ciência e Profissão por Rodrigo Alencar, mestrando do Programa de Psicologia Social da PUC-SP e membro do DAR .Ele nos traz uma lúcida e interessante contextualização do atual status proibicionista e do conceito de dispositivo para analisar não só um dispositivo das drogas como também diferentes formas de se atuar nesta forma de resistência chamada antiproibicionismo. Rodrigo aponta, por exemplo, que “a guerra contra às drogas é um pretexto político, não somente para monopolizar substâncias que circulam por um mercado, mas pela manutenção do permanente estado de vulnerabilidade mantido por incursões policiais às comunidades e pela nebulosidade das leis que criminalizam o tráfico, garantindo um significativo número de pessoas de classes mais baixas encarceradas”.

O DISPOSITIVO DAS DROGAS: UMA ANÁLISE SOBRE O USO MEDICINAL DE CANNABIS, SUA INSTITUCIONALIZAÇÃO E MOVIMENTOS SOCIAIS NO EXERCÍCIO DA RESISTÊNCIA.

Rodrigo Alencar

Este artigo tem como proposta provocar reflexões acerca de determinados processos que visam regulamentar o uso medicinal de cannabis, para articular estas reflexões me utilizo do conceito de dispositivo (FOUCAULT, 1988) (AGAMBEN, 2006) (DELEUZE, 2005), e com a leitura feita por Joanildo Burity (ano) acerca de movimentos pautados na identidade, além das discussões acerca do conceito de identidade utilizado na política nas aulas sobre “adolescência: condição paradigmática do sujeito”, ministradas pela profª Drª Miriam Debieux Rosa.

Para pensarmos tais questões, iniciemos pelo conceito de dispositivo:

O conceito de dispositivo tal como nos apropriamos foi lançado por Michel Foucault em sua obra “A história da sexualidade I: a vontade de saber”(1988), seguidamente trabalhado por Gilles Deleuze (2005) e recentemente por Giorgio Agambem (2009). Foucault constrói um conceito de dispositivo em um processo de análise da história da sexualidade, pensando os poderes que nos atravessam quando falamos, agimos, questionamos ou nos atentamos no que diz respeito ao sexo. A partir de então, compreende-se a sexualidade como um “dispositivo histórico, não à realidade subterrânea que aparece com dificuldade. Mas a grande rede da superfície em que a estimulação dos corpos, a intensificação dos prazeres, a incitação ao discurso, a formação dos conhecimentos, o reforço dos controles e das resistências, encadeiam-se uns aos outros, segundo algumas grandes estratégias de saber e de poder.”(FOUCAULT 1988:100).

Aqui temos uma série de elementos combinados que são lançados por Foucault como “estratégias de saber e de poder” ( Idem: 1988: 100), intensificação dos prazeres, incitação ao discurso, formação dos conhecimentos e reforços de controle e resistências são elementos que compõe esta rede que Foucault chama de dispositivo. Desde às descrições feita por Foucault em A História da Sexualidade (1988) até seu debate sobre o tema publicado em A Microfísica do Poder (2007), não possibilita a nosso ver, uma aplicação do conceito com o rigor que julgamos necessário para pensar as questões expostas acima. Portanto é através do texto “O que é um dispositivo?” de Giorgio Agamben (2006) é que temos uma melhor visualização do que podemos chamar de dispositivo.

Agamben define dispositivo como elemento indissociável de governabilidade e compondo a ideia de rede articulada entre elementos heterogêneos há o resgate da palavra oikonomia (economia), palavra em latim que corresponde a um “conjunto de práxis, de saberes, de medidas, de instituições cujo objetivo é gerir, governar, controlar e orientar, num sentido que se supõe útil, os gestos e os pensamentos dos homens” (2006: 39). Desta forma, tal oikonomia são saberes e práticas que realizam a gestão de dispositivos de sexualidade, das drogas, das exposições midiáticas e etc.

Tais dispositivos se atravessam e por certas passagens até mesmo se emaranham, assim como afirmado por Deleuze em seu texto “o que é um dispositivo?”. Dadas tais considerações, reconhecemos que para que possamos falar com mais propriedade sobre um dispositivo das drogas, nos situemos historicamente quanto à montagem deste dispositivo e suas implicações.

Pensar o fenômeno das drogas em nossa sociedade não é tarefa simples. Portanto é necessário lembrar que o uso, abuso e dependência de drogas é disparado como problema social e de saúde pública ao longo do séc. XX. Porém, se retornarmos à Grécia antiga, podemos encontrar registros do uso excessivo de álcool como responsável por experiências de “tentação ou de loucura divina” (CARNEIRO, 2008:67). Isto não necessariamente nos revela a existência de um elemento chamado droga já nesta época, mas sim a uma atenção quanto aos excessos e as alterações de consciência. Leia o resto deste post »


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